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Depois de recomeçar do zero, empreendedoras negras mostram como conhecimento e redes de apoio transformam negócios

Encontro promovido pelo Sebrae-SP reuniu histórias de superação, qualificação e fortalecimento do empreendedorismo negro
Por Redação
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Kátia Campos (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando deixou Sorocaba para recomeçar a vida em outra cidade, Fabiana Fátima Vieira dos Santos levou apenas três das 15 máquinas de costura que havia conquistado ao longo de anos de trabalho. A escola de corte e costura que havia construído ficou para trás, junto com um negócio que parecia não ter mais solução. Sem clientes, sem dinheiro e acumulando dívidas, ela e o marido passaram a produzir salgados para vender de porta em porta enquanto buscavam uma nova oportunidade.

O recomeço, porém, durou pouco. Os credores informais de quem precisou recorrer para manter a empresa localizaram seu novo endereço. Sem alternativa, Fabiana negociou diretamente com cada um deles para conseguir prazo e evitar que a situação se agravasse.”Eu tive que conversar com eles e dizer: ‘Se vocês me pressionarem, eu não vou conseguir pagar ninguém. Se vocês me derem tempo, eu pago um por um’. E foi isso que aconteceu”, relembrou.

A empresária conseguiu negociar com oito agiotas, voltou para Sorocaba praticamente sem recursos e iniciou, mais uma vez, a reconstrução da própria história.

Hoje, quase uma década depois, Fabiana recebe dezenas de alunas em uma escola ampla, equipada e planejada exatamente como sonhava. A transformação foi uma das histórias compartilhadas durante o Café das Pretas, realizado em parceria entre o Sebrae-SP, a Prefeitura de Sorocaba e instituições parceiras, dentro da programação da Jornada Empreendedora Potência Negra.

O encontro reuniu mulheres negras empreendedoras para discutir desafios, oportunidades e caminhos para fortalecer negócios liderados por pessoas negras, mas acabou se tornando, sobretudo, um espaço de identificação entre mulheres que encontraram no empreendedorismo uma forma de reconstruir suas próprias trajetórias.

Muito além da costura

Filha de um pai que insistiu para que aprendesse um ofício ainda na adolescência, Fabiana começou na costura aos 13 anos. Quase três décadas depois, tornou-se professora, fundou uma escola técnica e formou centenas de profissionais. Mas ela faz questão de dizer que saber costurar nunca foi suficiente.

“Eu aprendi que não basta fazer um bom trabalho. Você precisa aprender gestão, marketing, precificação, comportamento empreendedor. Se você não valoriza o seu trabalho, ninguém vai valorizar.”
Esse entendimento veio depois de enfrentar uma sequência de dificuldades pessoais e financeiras. Durante mais de cinco anos, dividiu a rotina entre cuidar da mãe, que teve as duas pernas amputadas em decorrência da diabetes, dar aulas, costurar para clientes e manter a empresa funcionando. Após a morte da mãe, em 2015, as dívidas aumentaram.

Na tentativa de recuperar o negócio, entrou em uma sociedade que prometia reorganizar a escola por meio do marketing. Em poucos meses, a situação piorou. “Foi a pior decisão que tomei. Eu perdi praticamente tudo.”

Sem acesso ao crédito tradicional, passou a recorrer a empréstimos informais para manter a empresa aberta.

A mudança para Taubaté parecia representar um novo começo, mas a realidade foi diferente. Enquanto o marido produzia salgados, Fabiana saía pelas ruas oferecendo os produtos e, ao mesmo tempo, contava para cada cliente que também era costureira e professora.

Foi assim que voltou a conquistar alunos, clientes e renda.

Fabiana Fátima Vieira dos Santos (Foto: Arquivo Pessoal)

O momento da reconstrução

O retorno definitivo para Sorocaba marcou uma nova etapa da história da empresária. Depois de reorganizar as finanças e quitar todas as dívidas acumuladas, Fabiana encontrou no Sebrae-SP um novo caminho para fortalecer o negócio.

Primeiro participou do Empretec, seminário de desenvolvimento de características empreendedoras. Depois integrou o programa Agente Local de Inovação (ALI), iniciativa que oferece acompanhamento personalizado para pequenos negócios. Ela conta que chegou aos programas emocionalmente esgotada. “Quando entrei no Empretec, eu estava destruída. Tentando me levantar das chamas.”
Foi durante as consultorias do ALI que passou a desenhar um plano para transformar a estrutura da escola. Até então, as aulas aconteciam em diferentes cômodos da casa, dificultando o acompanhamento das alunas. Incentivada a colocar no papel o espaço que desejava construir, iniciou a busca por um novo imóvel.

Encontrou uma casa que reunia exatamente as características que imaginava: residência e escola separadas, com um salão amplo para receber as turmas. Com o planejamento estruturado e acesso a financiamento, conseguiu investir em novos equipamentos e ampliar a empresa. “Hoje tenho a escola do jeito que sempre sonhei. O Sebrae fez parte dessa reconstrução.”

Segundo Fabiana, o maior aprendizado foi compreender que o empreendedor nunca pode parar de aprender. “Eu sempre digo para minhas alunas: façam cursos, estudem, busquem conhecimento. O mercado muda o tempo todo. A técnica é importante, mas é a gestão que mantém as portas abertas.”

“Não falta capacidade. Faltam oportunidades”

Se a história de Fabiana mostrou a força do recomeço, a administradora e ativista Kátia Campos trouxe para o debate uma reflexão sobre os desafios estruturais enfrentados por mulheres negras que empreendem.

Coordenadora estadual da Nova Frente Negra Brasileira e conselheira do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra (Comir), ela afirmou que costuma enxergar muito mais potencial do que fragilidade nas mulheres que acompanha. “Quando vejo uma mulher negra, eu não vejo alguém precisando de ajuda. Vejo uma potência que precisa de estrutura e estratégia.”
Segundo Kátia, a experiência como gestora e empreendedora mostrou que talento e dedicação nem sempre são suficientes para garantir crescimento.

Ela lembrou que mulheres negras ainda enfrentam maiores dificuldades para acessar crédito, conquistar reconhecimento profissional e obter remuneração equivalente à de outros grupos, mesmo quando possuem formação e experiência semelhantes. “O que falta para muitas mulheres negras não é capacidade. O que falta são oportunidades.”

Foi justamente por reconhecer essas barreiras que decidiu transformar as oportunidades que recebeu ao longo da carreira em portas abertas para outras empreendedoras.

Durante uma palestra realizada em uma empresa internacional instalada em Sorocaba, por exemplo, conseguiu ampliar o projeto inicialmente previsto e incluir cerca de 20 empreendedoras negras nas atividades desenvolvidas. “Se cada pessoa que ocupa um espaço de decisão se tornar ponte para outras mulheres, muitas famílias serão beneficiadas.”

Para ela, investir em gestão financeira, planejamento e posicionamento estratégico é urgente para fortalecer os negócios liderados por mulheres negras. “Precisamos ocupar os espaços de liderança. A sociedade também precisa se acostumar a ver mulheres negras decidindo, comandando e sendo referência.”

Histórias que se encontram

Depois do talk show, o microfone deixou o palco e passou para as participantes. A roda de conversa transformou a sala em um espaço de escuta coletiva, onde mulheres compartilharam relatos sobre racismo, machismo, maternidade, acesso ao crédito, dupla jornada de trabalho e os desafios diários de empreender.

As histórias tinham contextos diferentes, mas um ponto em comum: a busca por autonomia financeira e reconhecimento profissional. Na abertura do encontro, o gerente regional do Sebrae-SP, Alexandre Martins, destacou que esse é justamente o propósito de iniciativas como a Jornada Empreendedora Potência Negra. “Às vezes, uma única palavra muda uma trajetória. Queremos que este seja um espaço de acolhimento, fortalecimento e desenvolvimento para mulheres negras empreendedoras. Esta é a casa de vocês.”

Representando a Secretaria da Mulher, Natália Vaz reforçou que o município mantém programas permanentes voltados ao empreendedorismo feminino e destacou a parceria com o Sebrae-SP para ampliar oportunidades de qualificação.

Já Viviane Taveira, coordenadora de Igualdade Racial da Secretaria da Cidadania, lembrou que o tradicional Café das Pretas ganhou um novo olhar nesta edição ao incorporar o fortalecimento do empreendedorismo negro.

Também presente no evento, Patrícia Aniceto, representante do Banco do Povo Paulista em Sorocaba, apresentou as linhas de crédito oferecidas pelo programa e ressaltou a importância de ampliar o acesso a recursos financeiros para pequenos empreendedores. Segundo ela, o objetivo é oferecer condições mais acessíveis para que negócios possam crescer e se fortalecer.

Para Fabiana, compartilhar a própria trajetória foi também uma forma de mostrar que nenhuma dificuldade precisa ser definitiva. Ao encerrar sua participação, deixou uma mensagem para as mulheres que sonham em empreender. “Na vida teremos muitos desafios. Não importa quantas vezes você caia. Levante-se com mais força e prove para você mesma que você é capaz.”

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